quinta-feira, 7 de abril de 2011

A intolerância é maior do que imagina a vã filosofia


  Por Sergio Nogueira Lopes - do Rio de Janeiro
A demonstração de ignorância, racismo, intolerância e estupidez, ao vivo e em cores, no programa de uns humoristas na TV aberta, mostrou que o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) merece a fidelidade de quem o elegeu. É verdade. Cada voto está estampado em palavras e gestos deste parlamentar de tendência à ultradireita, que leva seu público cativo ao orgasmo sempre que vocifera impropérios do calão exato ao qual está acostumado a exercitar diante os seus, em casa, junto à mulher dele, aos filhos e a um cunhado o qual classifica, sem qualquer constrangimento, simplesmente de “Negão”. Nem cabe, aqui, relembrar o lamentável episódio, apenas repassá-lo sob a ótica da realidade brasileira, pois carece o público leitor das lentes translúcidas de uma análise equidistante da hipocrisia e da leviandade que reinam neste império tropical.
Em seu sexto mandato, Bolsonaro coleciona uma série de infrações, todas relativas a pronunciamentos racistas ou relativas a ódio aos gays
Essa figura pitoresca, é sempre bom frisar, não chegou ontem à vida pública. Cumpre o sexto mandato, eleito em outubro último, conferido por 120.646 votos. Se não bastasse, conduziu os filhos Carlos Bolsonaro, eleito na capital Fluminense com 28.209 para uma vaga na Câmara Municipal, e Flávio Bolsonaro, como deputado estadual no Rio de Janeiro, com 58.322 sufrágios. Eles são porta-vozes de um eleitorado garantido, que lhes rende poder e prestígio desde a queda do regime de exceção inaugurado há mais de quatro décadas e ainda insepulto, o qual ele e os seus ainda defendem com unhas e dentes. Falar em abrir os arquivos enterrados nos porões da ditadura, no gabinete do ex-militar, é comentar sobre a resistência da corda na casa de enforcado. Lembrar que o país vive um período de relativa democracia, então, será enxovalhar a memória dos heróis facistas que lhe polvilham a lembrança dos Anos de Chumbo, como os urubus que pontilhavam o céu dos sertões do Araguaia durante o Milagre Brasileiro.
Trata-se, porém, de um extremo da sociedade que, em qualquer sistema político do mundo, ecoa as vozes de parcela da população, doutrinada no capitalismo extremado, que se cristaliza nos regimes fascista e nazista, à direita, ou no comunismo mais rarefeito, como nas eras de Pol Pot ou do Kmer Vermelho. É importante, no entanto, que existam exemplares como este, da mesma forma que são imprescindíveis, na natureza, as formas de vida mais toscas, como as amebas, por exemplo. É óbvio que serão sempre pouquíssimos aqueles que se propõem, espontânea e voluntariamente, a alimentar tal invertebrado em seus intestinos. Mas a existência de tipos assim é necessária para a sobrevivência do protozoário, logo, merecem o reconhecimento da (imensa) maioria, que reconhece o perigo de conviver com o micróbio.
O tecido social brasileiro, no entanto, é esgarçado pela pressão dos discursos raivosos, pronunciados entre os dentes dos próceres desta fatia mais extremada da sociedade. Trata-se de gente intolerante, criada em um ambiente de ódio e nutrida por quilos de um poderoso veneno, cuja fórmula os judeus sentiram na pele, durante o Holocausto. Idem os negros, os ciganos e os homossexuais. Tal parcela da nação, longe de estar segregada em seu próprio meio, convive tranquilamente com a população e, ao contrário do que apregoam aos desafetos, repudiam a pecha do autoritarismo como a nódoa que lhes marca a existência, a exemplo das tatuagens na pele daqueles que feneceram nos guetos imundos da Alemanha de Hitler.
As lições da história são apenas contos da carochinha para quem acredita que a cor da pele, o credo religioso ou a preferência sexual são determinantes para a classificação dos seres humanos em uma espécie de escala na qual gente é medida com base neste ou naquele valor. Negar, porém, que tal escala exista é lançar mão, sem qualquer remorso, do expediente aplicado por avestruzes diante do perigo. Esconder a cabeça no buraco da ignorância não livrará os brasileiros de serem atropelados por um bonde carregado de miséria e rancor. Melhor será reconhecer a existência de uma casta pusilânime diante dos avanços da humanidade a relegar este bolsão de insensatez ao limbo do esquecimento, onde proliferam todos os fantasmas da humanidade.
Obviamente, o nobre deputado responderá, nas barras dos tribunais, por cada um de seus atos, posto a democracia assim o exigir. Mas não se deve, neste caso, combater o mal com um mal ainda maior, que seria o da intolerância descrita, em detalhes, na cartilha em que rezam o parlamentar, seus eleitores e simpatizantes. Estes, então, formam uma massa indistinta e enrustida, muito maior do que imagina a vã filosofia. Portanto, todo cuidado é pouco.

Sergio Nogueira Lopes é sociólogo e escritor, autor de Opinião Giratória, entre outros.

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